quinta-feira, 29 de outubro de 2015

018 - A escalada de um vulcão

Todo grande desafio pressupõe um bom controle mental. Além do corpo, a pessoa precisa treinar também a cabeça, pois ela é a primeira a sucumbir diante das adversidades. Os dois avisos sobre a parte física trouxeram um tanto bom de insegurança para mim quando eu os li, porque realmente eram assustadores para alguém sedentário como eu. A frequência de treinamentos sugerida dava a dimensão do desafio a ser enfrentado, pois pedia que caminhássemos o percurso de quase sete maratonas como preparação. As restrições a pessoas acima do peso e com problemas nas articulações também assustavam, principalmente levando em conta que o aviso falava de pessoas com dez ou quinze quilos a mais, indiretamente excluindo da trilha quem estivesse com sobrepeso acima disso.

Mas, não eram só esses dois avisos que me assustavam. Havia um terceiro:

* Lembrar de cortar as unhas dos pés, para evitar o atrito com o tênis na descida. Há inúmeros casos de unhas que caíram alguns dias depois da volta, por não terem tomado este cuidado.

Não inventei esse aviso, não mexi no seu texto. Ele veio assim mesmo, simples e direto: corte as suas unhas, porque senão elas vão cair depois da trilha. Que cacete de caminhada era aquela que ameaçava de morte as minhas pobres unhas? Se toda regra tem uma exceção, eu havia descoberto que a exceção à regra de que para baixo todo santo ajuda era justamente em relação às unhas. O jeito então era trabalhar a cabeça.

Uma subida que nunca terminava



Apreciando as belezas da Cordilheira dos Andes



Subida completada!



Descendo de "esquibunda"


A minha primeira providência foi não ficar pensando nas dificuldades da caminhada, nos riscos que ela poderia trazer e nas sequelas a serem deixadas. Eu tinha uma experiência na minha vida e me guiaria muito por ela. Falo da subida do Vulcão Villarrica, em Pucón, no Chile.

No final do ano de 2005, fiz com minha esposa uma maravilhosa viagem pelo Chile, país que aprendi a amar e a respeitar. Chegamos a Santiago, ficamos dois dias por lá e alugamos um carro, com o qual fomos primeiro para Viña del Mar e Valparaíso, cidades irmãs, mas totalmente diferentes. Mais dois dias no litoral e rumamos para o sul, parando aqui e acolá, visitando um amigo e sua família, até chegar a Puerto Varas, preciosidade às margens do lago Llanquihue e em frente ao estonteante vulcão Osorno. Curtimos bastante tudo por ali, sempre em um clima muito romântico, e depois pegamos a estrada para Santiago novamente, percurso que ainda contaria com uma parada de dois ou três dias em Pucón. Chegamos a essa cidade no final da tarde, após nos perdermos em atalhos fora da rodovia Panamericana, arranjamos uma cabaña para nela nos hospedarmos e no dia seguinte fomos conhecer um pouco das belezas naturais ali por perto. Foi então que entramos em uma agência de turismo e vimos diversos passeios na região, entre eles a subida do vulcão Villarrica. Tínhamos apenas mais um dia por lá e queríamos aproveitar o melhor do lugar, razão pela qual meus olhos brilharam diante da possibilidade de fazer aquele passeio tão diferente da minha realidade. Um pouquinho de conversa e eu já estava encantado: quando teria novamente a oportunidade de caminhar pela neve até o topo de um vulcão ainda em atividade, que ficava soltando fumacinha o tempo inteiro?

O problema era a minha esposa. O passeio duraria um dia inteiro, seria feita uma caminhada certamente cansativa e tudo o que ela mais gostava em viagens era de conforto, algo que não combinava com aquela proposta indecente.

– Es muy difícil? – perguntei ao rapaz da agência, que prontamente me explicou que dezenas de pessoas subiam o vulcão diariamente, inclusive idosos.

Encantado, mas já descrente da aprovação, perguntei à minha esposa:

– E aí, anima?

– Por mim, tudo bem – ela respondeu.

Sabe quando você não acredita no que acabou de ouvir? Pois foi o que aconteceu comigo. Tive que perguntar a ela ainda mais umas duas vezes para ter certeza de que eu não estava delirando. A minha esposa, tão delicada, tão bonita, tão apaixonada por lugares confortáveis e prazerosos, concordando comigo de subir um vulcão ativo até o seu topo? Minha reação instantânea foi de desconfiança. Depois de um tempo de casado, a gente, mesmo acreditando que o amor ainda existe e é forte, às vezes desconfia das coisas. Quando a esmola é demais até o cego desconfia – já dizia o ditado. O que será que ela queria em troca? Um filho não era, não estava nos planos dela. Dinheiro também não, porque ela trabalhava e tinha lá suas economias. Mais carinho? Mais atenção? Mais chamego?

Se a esmola é muita, o melhor a fazer é pegá-la logo e deixar para pensar no problema depois, porque senão corre-se o risco do doador desistir daquela loucura. Por isso, tratei logo de fechar o contrato com a agência, paguei cerca de sessenta dólares para cada um e combinei de estarmos lá no outro dia, antes das sete da manhã, para iniciarmos a aventura.

Foi o que fizemos. Na agência, nos deram uma roupa própria para a neve, diferente de tudo o que nós dois, bons brasileiros habitantes de um país tropical, tínhamos visto ou vestido na vida. Luvas, botas, capacete e uma machadinha, cuja finalidade seria logo explicada. Pegamos uma vã e seguimos em direção à estação de esqui no vulcão, desativada naquela época do ano porque estávamos em pleno verão. Eu continuava olhando a minha esposa desconfiado, sem conseguir entender o que tinha levado a moça a aceitar tamanha enrascada.

A caminhada foi difícil. Subíamos em zigue-zague, em fila indiana, um grupo de umas dez pessoas. Os passos eram dados no gelo, em degraus formados pelos contínuos grupos que passavam por lá. Na primeira parte da subida, a Rose reclamou demais e pensei que ela fosse desistir. Depois, quem passou a reclamar fui eu, com cãibras danadas que me assustaram muito e estiveram a ponto de me derrubar na lona. O pior de tudo é que o cume, que da base não parecia muito distante, aos poucos ia se afastando de nós de forma sacana. Quanto mais a gente andava, mais parecia que ele estava longe!

A recompensa era a vista. Em certo momento, ultrapassamos o nível das nuvens. Estava um dia lindo e, em meio à neve do nosso próprio vulcão, víamos ao longe os cumes brancos de inúmeras montanhas da Cordilheira dos Andes, uma visão magnífica que meus olhos nunca vão esquecer. A beleza estupenda da paisagem fez com que conseguíssemos finalmente chegar ao cume, em um honrado último lugar entre os mais de dez grupos que subiram o vulcão naquele dia. Demoramos, mas chegamos! Lá em cima, alcançamos as bordas da cratera, um local onde a neve estava derretida por razões óbvias. Dentro do buracão, três buracos bem menores, onde a lava se agitava intensamente e, a cada cinco minutos, voava alguns metros de altura, sempre acompanhada de um rugido esquisito e de uma fumaça bastante fedorenta. Enfim, um verdadeiro espetáculo! Para coroar toda a aventura, ainda descemos de esqui-bunda pela neve do vulcão, momento em que todo mundo voltou a ser criança e lembrou dos tempos dos tobogãs nos parques, só que ali com muito mais emoção e beleza.

Às seis da tarde, estávamos de volta a Pucón, em frente a uma farmácia, os dois arrebentados, loucos para comprar um relaxamente muscular e já decididos a ficar mais uma noite na cabaña.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

017 - A preparação física e mental

Na minha cidade natal, Uberlândia, há um belo parque chamado Parque do Sabiá. Nele, fizeram uma pista de caminhada com cerca de cinco quilômetros, que passa ao lado de lagos, de um pequeno zoológico, debaixo de várias árvores. Há também equipamentos para alongamento, lanchonetes com água de coco e outras coisas do gênero. Sempre cheio, principalmente nos finais de tarde, o Parque do Sabiá me viu algumas poucas vezes por lá, para fazer a famosa caminhada em sua pista. Mas, meu problema foi sempre a distância, já que a pista segue em boa parte de seu percurso as extremidades do parque e os atalhos não são muito convenientes, quando existem. Assim, se você deixou o seu carro em uma ponta do parque e começou o giro pela pista, provavelmente terá que completar os cinco quilômetros para poder ver seu carro novamente.
            
Venhamos e convenhamos: cinco quilômetros são quase uma légua, não é mesmo? Meu passo tem aproximadamente 79 centímetros, o que significa ter que dar mais de 6.320 passos para completar o giro no Parque do Sabiá. Quando caminhava de forma veloz por lá, atingia a incrível marca de 4,8 km/h, sinal de que não conseguia terminar a volta em menos de uma hora. Por essas e outras razões, sempre gostei de caminhar por lá, mas fui poucas vezes porque achava o percurso longo. Para piorar, já disse que sou de uma família sem muita tendência para engordar. Além disso, meus avós e tios nunca foram de ter pressão alta ou problemas no coração. Uma avó morreu aos 85 anos, um avô aos 92 e outra avó já ultrapassava a marca de 87 anos quando eu e o Gustavo decidimos fazer a trilha do Monte Roraima. Nenhum deles, apesar de toda essa longevidade, foi de fazer muito exercício físico. Então, qual o meu estímulo?
            
Em Porto Velho, também há um espaço para caminhadas, agradável mas não tão charmoso quanto o Parque do Sabiá. É a avenida Jorge Teixeira, em um espaço que vai do aeroporto da cidade até determinado ponto da avenida de duas pistas, cerca de dois quilômetros e meio depois. Uma das pistas sempre é fechada no final das tardes e é por lá que o pessoal queima as suas gordurinhas.
            
Também já havia caminhado nessa pista, cuja distância era só um pouco menor do que a do Parque do Sabiá. A frequência nunca fora grande pelos motivos citados e também porque Porto Velho é uma cidade muito quente, com muita chuva. Então, se não chove no final do dia, faz calor demais. Um verdadeiro paraíso para quem precisa de uma desculpa para não fazer uma caminhada!
            
O problema é que a lista de materiais que recebemos no começo de março trazia dois avisos muito importantes, os quais reproduzo na íntegra:

* Para pessoas com pouco condicionamento físico, recomendamos caminhadas de 10 km pelo menos 03 vezes por semana, de preferência 60 dias antes da viagem. Se for possível, opte por terrenos acidentados, e melhor ainda se puder levar uma mochila com uns 5kgs, para já ir adaptando o corpo à realidade da trilha.
* Pessoas que estejam acima do peso ideal (10 a 15 kg) convêm uma entrevista antecipada com o guia para avaliação. Pessoas que tenham problemas nas articulações (principalmente joelhos), somente com autorização médica e após entrevista. Qualquer outro problema de saúde torna-se imprescindível avaliação médica.
           
Pronto, começou mal!

Dilema nº. 01: se eu, que tinha por mascote um gato gordo que só mexia o traseiro para encher ainda mais a pança, não animava andar cinco quilômetros no Parque no Sabiá ou em Porto Velho, em terreno praticamente plano, como faria para efetuar todo aquele treinamento? Façamos as contas: 4,5 semanas por mês x 10 km x 3 vezes por semana x 2 meses = 270 quilômetros! Ou, traduzindo em passos, 341.772 passos para alguém do meu tamanho! Caramba! Essa distância significava dar mais de cinquenta voltas inteiras no Parque do Sabiá, um número que eu sonhava percorrer em toda a minha vida, não em dois meses. Mas, os problemas não eram só esses...
            
Dilema nº. 02: onde arrumar um terreno acidentado em Porto Velho, cidade em plena planície amazônica, lugar onde pouca gente sabe para que lado é para baixo e que lado é para cima? Porto Velho simplesmente não tem morro, unzinho sequer! No centro da cidade até que existem duas quadras levemente acidentadas, mas muito de leve, em um local absolutamente inapropriado para ficar caminhando. Imagine a minha pessoa, com uma mochila nas costas, indo e voltando em dois quarteirões, em meio a lojas populares, camelôs e vendedores de doces caseiros, por mais de uma hora? Dez quilômetros significavam sair de uma esquina, andar até duas seguintes e voltar, repetindo o trajeto vinte e cinco vezes. No mínimo, eu seria taxado de louco, razão pela qual nem cheguei a cogitar aquela hipótese absurda.
            
Dilema nº. 03: minha velha mochila, a qual pretendia levar na trilha, só chegaria às minhas mãos vinda de Minas Gerais duas semanas antes da viagem. Como eu faria para carregar peso nas costas sem a minha mochila? Impossível. Além disso, mesmo caminhando em um lugar no qual todo mundo vai no final da tarde praticar atividades físicas, não deixaria de parecer um jeca com a mochila carregada nas costas, enquanto todo mundo caminhava como gente normal, sem peso algum. Solução: ainda a ser pensada.
            
Dilema nº. 04: eu tinha só quarenta dias pela frente, ou seja, teria que andar os 270 quilômetros em menos tempo ainda, totalizando pelo menos 6,75 quilômetros todos os dias. Todos os dias?! Eu não tinha tempo para isso, não tinha disposição, ânimo, companhia, a chuva não deixaria, o calor acabaria comigo, enfim, como fazer para completar o treinamento recomendado em tão pouco tempo?
            
Ainda bem que Deus é bom e nem toda desgraça cai sozinha na cabeça de um pobre coitado de uma vez só. Em relação às recomendações seguintes, eu estava imune: não estava acima do peso e não tinha problemas nas articulações. Pelo menos isso me serviria de consolo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

016 - Viagem fechada

No mesmo dia em que meu amigo de Porto Velho jogou a toalha, liguei para o Gustavo. Certas coisas a gente fala por telefone e a notícia que eu queria dar não seria passada por e-mail. Fui sincero com ele, abri o jogo quanto à questão do valor, disse que estava achando caro e todo o resto que já contei aqui. Mas, como companheiro é companheiro e f.d.p. é f.d.p. (ouvi essa frase em um discurso de colação de grau de um curso de Direito, o que me deixou tão horrorizado que hoje vivo usando a mesma frase), fui direto:

– Gustavo, eu vou, mesmo que não consigamos mais outra pessoa.

No dia seguinte, o Gustavo já iniciou as negociações definitivas com a agência e conseguimos um desconto de dez por cento. Não era grande coisa, mas já aliviava um pouquinho o bolso e dava para pagar as diárias do hotel e as refeições em nossa passagem por Boa Vista. Mais um dia e já tínhamos em nossos correios eletrônicos três documentos enviados pela Makunaima: 1) roteiro detalhado da caminhada; 2) ficha de inscrição; 3) lista de material de uso pessoal necessário. No mesmo dia, fiz o depósito de cinquenta por cento do valor do pacote e mandei minha ficha de inscrição.

Voltar atrás agora só com prejuízos financeiros, pois nesses casos as desistências são sempre acompanhadas de multas. O jeito era convencer minha mente definitivamente sobre o que o corpo iria enfrentar, treinar esse corpo o minimamente possível para não fazer tão feio na trilha e, claro, começar os preparativos para a viagem.

Alexandre Henry
alexandre.henry.alves@gmail.com

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

015 - Em busca de mais um companheiro para a viagem

O duro é encontrar um companheiro para uma empreitada dessas. Se você fala que é um churrasco de graça na sua casa, regado a cerveja, aparecem dezenas de amigos samaritanos, prontos para te ajudar a levar a carne assada da churrasqueira para a mesa. Se você convida um amigo para passar uns dias na sua casa de praia, também não terá problemas de companhia. Mas, vá convidar alguém para se esfolar seis dias em uma trilha íngreme, a um custo igual a quase uma centena de idas a uma churrascaria? 

Sim, aparecem uns curiosos, gente que diz sempre ter sonhado com algo assim, gente para te dar a maior força, te estimular a fazer aquilo, só que na hora do vamos ver todo mundo fica só no incentivo mesmo e nas palavras de estímulo. É a velha história: todo mundo acha a criança linda, mas ninguém quer colocar o próprio nome no registro de nascimento dela! Sempre há uma desculpa para o sujeito te dar diante de um convite desses, todas seguidas de um lamento e da promessa sobre a ida em uma próxima vez, como se todo semestre você subisse uma montanha como o Roraima.

Até que tivemos alguns candidatos, mas o mundo estava conspirando para que ninguém mais fosse conosco. Cheguei a mandar mensagens para a lista nacional da minha associação, composta por mais de 1.500 colegas, mas nada de positivo voltou além de perguntas curiosas sobre a aventura.

Confesso que, nessa hora, eu pensei em desistir. Como já dito, em vários momentos eu me peguei cogitando a possibilidade de deixar aquela maluquice de lado e, quando a questão dos custos tocou fundo, eu realmente quase desisti. 

Sempre há grupos para o Roraima, ao menos dois por mês, mesmo nos meses de baixa temporada. Eu poderia me encaixar em um deles, talvez em outubro, durante minhas férias seguintes, mês em que o clima estaria até melhor e eu poderia atingir um grau de preparação física e mental mais adequado. Insistindo em ir em abril, seriam pelo menos mais R$ 700,00. Isso pegou pesado comigo, mesmo tendo o dinheiro. O problema é que ninguém quer gastar mais do que o necessário, mesmo se o seu orçamento comportar o valor extra.

Nos primeiros dias de março, já tínhamos definido o início da caminhada para 13 de abril, uma terça-feira, e o término para o dia 18, um domingo. Na mesma época, um colega de Porto Velho, minha maior esperança de conseguir mais um para a caminhada, jogou a toalha afirmando problemas no joelho e o alto custo da aventura. Ainda restava a esperança de que a própria Makunaima, a agência de Boa Vista, conseguisse alguém para fazer a trilha conosco. 

Esforços nesse sentido estavam sendo feitos, disse-me o Francisco, nosso contato na agência. Porém, faltando pouco mais de um mês para a partida, eu não tinha muita esperança. Se fosse um mês de férias, dezembro, janeiro ou fevereiro, por exemplo, nossas chances seriam maiores. Tem muita gente que marca as férias e, diante de uma possibilidade dessas, acaba animando de última hora e embarcando na aventura. Mas, pouca gente no Brasil tira seu descanso do trabalho em abril e, vários que fazem isso, já têm todo o roteiro das férias programado com muita antecedência. Em resumo, uma viagem cara como a nossa, que exigia não só dinheiro como preparação física e mental, não era algo para ser decidido em tão pouco tempo.

Sendo essa a realidade, eu tinha que tomar a minha própria decisão, até porque não estava sozinho e o Gustavo dependia de mim para fazer a trilha ou não. Era hora de bater o martelo ou sair da sala de leilão definitivamente.

Alexandre Henry
alexandre.henry.alves@gmail.com

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

014 - Os custos da subida do Monte Roraima*

Com a data da viagem praticamente definida, faltava arrumar mais gente para ir conosco. A conta era bastante simples*:


** Tarifas **
R$ 1.400,00
Grupo de 05 ou + pessoas
R$ 1.500,00
Grupo de 04 pessoas
R$ 1.600,00
Grupo de 03 pessoas
R$ 2.300,00
Grupo de 02 pessoas
R$ 2.900,00
Para 01 pessoa apenas

           
Éramos só dois até então e o preço ficava nos R$ 2.300,00. Um ser humano a mais que fosse com a gente já traria um desconto de R$ 700,00 para cada um, algo nada desprezível. É preciso ter em mente que uma viagem dessas é cara e qualquer redução de custos sempre é bem vinda. Em primeiro lugar, deve-se lembrar que os preços das agências de Boa Vista não incluem o deslocamento até lá, ou seja, você tem que cuidar do seu voo até a capital roraimense. Passagem aérea no Brasil é quase um estelionato, todo mundo sabe, embora o culpado nem sempre seja conhecido – altos impostos, preço dos combustíveis vinculado ao dólar, custo-Brasil etc. Imagine então uma passagem para a capital mais ao Norte do país, talvez uma das mais isoladas e distantes, ao lado de Macapá e Rio Branco. É uma verdadeira fortuna, com absoluta certeza. 

Em nosso planejamento de viagem, estávamos de olho nessa questão das passagens, tentando descobrir um jeito de não estourar ainda mais o orçamento e lembrando que, pelo menos naquele momento, só existiam dois voos diários para Boa Vista em aviões de grande porte: um pela Gol, durante a madrugada; outro pela TAM, durante o dia. Todos os dois com escala ou conexão em Manaus.


Fora o custo das passagens, ir para Boa Vista para a subida do Monte Roraima ainda traz outras despesas. A pessoa precisa pagar ao menos uma noite de hotel, caso pegue o voo diurno, ou duas, caso pegue o noturno. A explicação é bem simples. Segundo pesquisamos naquele mês de fevereiro, o voo da Gol chegava a Boa Vista no meio da madrugada. A partida para a trilha se dava às cinco da matina, com o transporte para Santa Elena de Uairém, na Venezuela, seguido de outro transporte até a comunidade indígena e caminhada logo em seguida. 



Na internet, tinha visto o relato de um grupo que havia feito essa proeza: chegaram no voo da madrugada e, três horas depois, já estavam a caminho da Venezuela. Resultado? Um deles simplesmente não deu conta de subir o Roraima. Então, se você chegar no voo da madrugada, vai ter que dormir aquele resto de noite no hotel e ainda pagar mais uma diária. Se chegar no voo da tarde, dá para pagar só uma noite de hospedagem, embora em sempre recomende passar ao menos um ou dois dias completos em Boa Vista para conhecer a cidade e as redondezas.



Mas, também não é só isso. Tem táxi, almoços, jantares, lanches. Claro, para quem é caminhante de primeira viagem, os custos podem subir exponencialmente: uma boa mochila, bota apropriada, capa de chuva, saco de dormir, isolante térmico, bastão para caminhada e por aí afora. Comprando tudo no Brasil, facilmente essa conta chegaria a R$ 1.000,00 quando estávamos planejando nossa viagem. A sorte é que eu já tinha algumas coisas, mas ainda assim arrumar mais um companheiro de viagem ajudaria demais a suavizar o bolso, afinal de contas, saber que os pés sairiam machucados daquela aventura bastava, não sendo necessário machucar também a carteira.



Alexandre Henry Alves

alexandre.henry.alves@gmail.com

* Os valores são de 2010 e, por isso, certamente estão muito defasados.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

013 - Uma viagem deslumbrante pelo Rio Madeira

Toda essa decepção com a floresta amazônica mudou no dia 1º de fevereiro de 2010, pouco depois de ter tomado aquelas decisões com o Gustavo sobre a caminhada ser de seis dias e a agência ser a Makunaima. Junto com dois servidores da Justiça Federal e um piloto do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, um órgão federal ligado ao Ministério do Meio Ambiente que nos cedera a voadeira (canoa movida a motor de popa de bom desempenho), desci o rio Madeira como coordenador de um Juizado Especial Federal itinerante e fluvial. 



Arrumando a "voadeira" para iniciar a navegação pelo Rio Madeira.




Teixeira, o nosso "piloteiro", já contava com décadas de navegação pelos rios da região.




Nossa voadeira em um dos inúmeros portos em que paramos no rio Madeira.



Estávamos na fase de divulgação de um programa que levaria juízes, membros do Ministério Público, do INSS, da Defensoria Pública da União e de outros órgãos para atender as populações do chamado Baixo Madeira. A intenção era atender os moradores das margens do Rio Madeira, pouco após Porto Velho e até a divisa com o estado do Amazonas, viajando sempre de barco. Para que isso acontecesse, era preciso que uma equipe fosse antes e fizesse a divulgação das datas em que o barco passaria pelas comunidades, para receber as ações judiciais dos moradores.

Fui sem pretensões. Mas, logo no começo, inteirei-me que aquela não seria uma viagem de trabalho comum, até pelo que estávamos para fazer: entrar em uma canoa pequena, para navegar no gigantesco Rio Madeira, que tem esse nome principalmente porque por ele descem todos os dias do ano inúmeros troncos gigantescos de árvores arrancadas das margens pela correnteza, junto com tudo quando é tipo vegetação, de todos os gostos e tamanhos. 



Em alguns momentos, a chuva nos esperava em meio à navegação
.



A vida dos ribeirinhos (na foto, produção de farinha artesanal) foi algo que me encantou por completo nessa viagem, além das belezas naturais que presenciei.




Paramos em vários distritos de Porto Velho à margem do rio Madeira, todos eles relativamente preparados para as cheias do rio, que são comuns anualmente.




Mais uma divulgação feita. O cartaz anunciava o trabalho da Justiça Federal dali a alguns meses.



Já tinha visto o rio à distância, do seco, bem como a partir das balsas que o cruzam e dos barcos maiores que fazem pequenos passeios turísticos perto da capital rondoniense. De repente, eu estava sentado em uma canoa a menos de um metro de suas águas barrentas, bastando esticar o braço para nelas tocar. Em menos de vinte minutos, eu já tinha visto a quantidade de balsas monumentais que levam de tudo rio acima e rio abaixo, de Porto Velho a Manaus e vice-versa, já tinha visto o movimento dos vários pontos de atracação dos barcos e balsas, bem como a vida pulsante às beiras do Madeira. 

Porém, isso era apenas um aperitivo. Ao longo do dia, fomos descendo o rio e parando em várias comunidades pequenas, às vezes adentrando um pouco na mata, conhecendo frutos e aves da região e falando com inúmeros moradores, alguns dos quais nunca tinham saído dali. O Teixeira, nosso piloteiro, como é chamado o “motorista” da voadeira na Amazônia, foi me explicando muita coisa, inclusive sobre as árvores, até me mostrar aquela que sem eu saber habitava o meu imaginário infantil: a samaúma, também conhecida como a rainha da floresta. Podendo chegar até setenta metros de altura e três metros de diâmetro de tronco, cuja cor é meio esbranquiçada, a samaúma tem uma copa imponente que se destaca onde é muito difícil uma árvore chamar a atenção, diante de tantas concorrentes, ou seja, na Floresta Amazônica. 



Aos pés de uma árvore bem grandinha (não era uma samaúma).




As samaúmas nas margens do Madeira me encantaram durante toda a viagem.
 

No dia seguinte, após dormirmos em uma comunidade ribeirinha, fomos até a Reserva Extrativista do Cuniã, no intuito de continuar o trabalho de divulgação que estávamos fazendo. Saímos do Madeira e entramos em um igarapé, que é como são chamados os pequenos rios na Amazônia (algo como os ribeirões de outras regiões brasileiras), chegando a locais onde a mata realmente nunca tinha sido tocada pelo ser humano. 

Em determinado momento, o nosso piloteiro diminuiu a velocidade e mirou a voadeira em direção à floresta. Com o conhecimento de quem navegava naquela região havia décadas, ele encontrou o que os ribeirinhos chamam de furo, ou seja, um atalho que uma pequena embarcação pode pegar por dentro da mata na época das chuvas, quando a floresta é alagada, formando os chamados igapós. Por meio daquele furo, economizamos bons minutos de viagem e eu pude me sentir finalmente como em um daqueles documentários que a gente vê pela televisão desde criança, nos quais o repórter passa com a canoa por entre árvores gigantescas, navegando em um oceano de água cobrindo as bases da mata parcialmente submergida. 


O "furo" no meio da floresta alagada.




Ir ao Cuniã foi um dos pontos altos de uma viagem memorável.




Claro, eu não poderia deixar de sair na foto, no meio do igapó!


Nem que eu quisesse conseguiria exprimir aqui o encanto que senti naquele momento, no qual eu adentrava em um mundo que pensava só existir na minha imaginação, um mundo fabricado pela TV naqueles programas de ficção. Incrível sentir a paz do lugar, mesmo a floresta sendo bem barulhenta. Sim, se tem algo que aprendi naqueles dias foi que a floresta pode ser ensurdecedoramente barulhenta, principalmente se as cigarras estão ativas! Às vezes, aparece um silêncio, mas de vez em quando o barulho da bicharada é tamanho que – perdoe-me o exagero – um seringueiro deveria utilizar tampão de ouvido como equipamento de segurança profissional, para não ficar surdo! Mas é um barulho bom, sem rompantes como os dos carros nas ruas das grandes metrópoles, um barulho que de vez em quando vai diminuindo lentamente, depois volta, é entrecortado pelo canto de uma ave lá na copa da samaúma, pelo ploc de algum fruto caindo na água, pelo som distante da respiração de um boto no meio do igarapé...


Este ribeirinho aproveitava para se banhar no Rio Madeira.




Um dos inúmeros e tradicionais barcos de passageiros que navegam não só pelo Rio Madeira, mas por toda a região amazônica, levando gente, cachorro, papagaio e muita mercadoria, entre outras coisas.




As crianças ribeirinhas vão para a escola de barco.




Linda canoa escavada em um tronco de árvore. Sem uma emenda sequer.




Em um cantinho às margens do rio Madeira, o singelo cemitério permanece em paz.




Ambulância também é de barco.




Vida simples e alegre da meninada ribeirinha.




Uma das inúmeras dragas que vi no rio Madeira, buscando ouro (provavelmente, de forma ilegal).




Mais uma das imensas balsas que levam caminhões, ônibus e muita carga pesada até Manaus e outras localidades, já que a rodovia que liga Porto Velho à capital do Amazonas, um dia asfaltada, voltou a ser praticamente engolida pela floresta.


Tudo bem, estou aqui para contar sobre a caminhada rumo ao Monte Roraima, mas como no meio de todo o seu preparativo apareceu essa viagem maravilhosa pela Amazônia, eu não poderia deixar de falar um pouquinho sobre ela. Naquele igarapé, depois de atravessar o furo, vi jacaré (com a indefectível borboleta pousada no focinho do bicho), macacos, pássaros dos mais bonitos e uma infinidade de coisas que meus olhos e minha câmera foram registrando avidamente. 

O mesmo aconteceu depois de terminarmos o trabalho na Reserva do Cuniã, pois cada pedacinho daquela floresta intocada, cada detalhe das comunidades amazônicas ribeirinhas que nos receberam, a lida para fazer a farinha d’água que presenciamos, os frutos maravilhosos e desconhecidos para o paladar que recebemos, os constantes botos em fase de vadiagem (época de reprodução, no linguajar local), o peixe fresco do final do dia nos jantares regados a boa conversa sobre um mundo muito mais simples, tudo isso me cativou de uma forma que realmente selou meu amor pela Amazônia. 

Depois de quatro dias, eu não era mais apenas um visitante ou morador de uma capital da região Norte, tão perto e tão longe da floresta. Muito menos era um turista que não chega a se aproximar da verdadeira mata, que não consegue enxergar a dimensão desse universo tropical. Eu era alguém que tinha realmente conhecido, embora rapidamente, a Floresta Amazônica, alguém que agora tinha a noção da infinita riqueza que ela representa para o nosso país e para o mundo. A Amazônia que meus olhos viram não era igual à da minha imaginação infantil, era muito melhor, mais rica, mais colorida, mais barulhenta e mais apaixonante.

Alexandre Henry
alexandre.henry.alves@gmail.com

domingo, 20 de setembro de 2015

012 - A decepção com a Floresta Amazônica

Antes de mais nada, preciso adiantar, se é que você já não percebeu, que essa história tem muitos desvios para outras lembranças interessantes da minha vida. Mas, acredite: todas elas têm alguma coisa a ver com o Monte Roraima ou, quando não, pelo menos com aquele momento que eu estava vivendo.

Pois bem, vamos então a um assunto que me chamou a atenção naquele biênio de 2009/2010.

A maioria dos brasileiros conhece a Amazônia apenas pela televisão. Até 2009, eu estava entre essa maioria. Ao me mudar para Porto Velho, a menos de trinta minutos da divisa com o estado do Amazonas, pensei que conheceria enfim a grande floresta brasileira, motivo de tanta discussão na área ambiental. 



Estrada da Borracha? Mesmo chegando à cidade de Chico Mendes, o que se vê não é uma floresta, mas uma triste paisagem formada por muito desmatamento e áreas de pastagem.


Infelizmente, não foi isso o que aconteceu. Embora morar em uma capital do Norte te deixe diretamente em contato com a cultura nortista, isso não significa que você terá conhecido a mítica Floresta Amazônica. Chegando a Porto Velho, por exemplo, você ainda verá um tantinho de árvore ao pousar no aeroporto da cidade. Se for até algum dos mirantes do Rio Madeira, também verá do outro lado um pedacinho de mata. Isso poderá acontecer da mesma forma em Rio Branco, Manaus e Belém. 

Não falo das duas outras capitais, Palmas e Boa Vista, porque nem sequer ficam em região de floresta tropical. As quatro citadas capitais que surgiram no meio da mata são hoje concentrações humanas urbanizadas, com poucos vestígios de mata na área povoada da cidade. Cidades como Porto Velho, por exemplo, ainda trazem o agravante maior de terem poucas árvores, o que só aumenta a sensação de que você em qualquer lugar do mundo, menos em volta da maior floresta do planeta.



Outra decepção foi o hotel Pakaas Palafitas Lodge, hotel supostamente de selva em Guajará-Mirim, na divisa de Rondônia com a Bolívia. O maior problema foi perceber que só havia uma faixa mínima de selva ao redor do hotel, coisa de metros, sendo que o restante era pasto. Certamente, isso não é culta do hotel, mas eu pensei que estava indo para um local realmente dentro da mata densa.




Guajará-Mirim, destino rotineiro após a mudança para Porto Velho em 2009, foi uma das pontas da famosa estrada de ferro Madeira-Mamoré, eternizada na minissérie Mad Maria, da Rede Globo.




Guararamerin é a cidade irmã de Guajará-Mirim, mas no lado boliviano. Muita pobreza e um comércio grande de produtos sem alíquota de importação, quase todos falsificações chinesas grosseiras.


Até janeiro de 2010, confesso que eu achava a Amazônia bem mixuruca. Sabe aquela imagens que você cria na infância, de uma selva formada por árvores gigantescas, cheia de mistérios e perigos? Pois era isso o que tinha em mente e, durante vários meses, foi tudo o que eu não encontrei. Tudo bem que Porto Velho não tinha nada de floresta dentro da cidade, mas peguei o carro então para ir a Guajará-Mirim, já na divisa com a Bolívia, e o que vi foi muito pasto e um arremedo de selva à distância. 

Aliás, da selva que consegui enxergar, não surgiram as imagens das árvores gigantescas do meu imaginário infantil. Vi árvores relativamente grandes, claro, mas não muito diferentes do que meus olhos costumavam ver nas descidas para a praia, quando topava com o restolho de Mata Atlântica que há no estado de São Paulo.

Maior decepção tive ainda quando fui a Rio Branco, no Acre, ainda no ano de 2009. Dirigindo um carro alugado, rumei para a cidade de Xapuri, onde viveu Chico Mendes, e depois para Brasiléia, divisa com a cidade boliviana de Cobija. Naqueles pouco mais de 200 quilômetros, eu esperava enfim encontrar a mais espetacular floresta da face da Terra, um mundo rico em tudo quanto era tipo de planta e bicho. 



As três visitas que fiz a Rio Branco, capital do Acre, entre 2009 e 2010, deixaram-me uma excelente impressão da cidade: charmosa e, em boa parte, muito bem cuidada.



Rio Branco, capital do Acre (2009).


Tristeza. Parecia que eu estava andando no meu devastado cerrado, no interior de Goiás: só fazendas de gado, criando nelores em sistema extensivo, uma imagem que mexeu com o Chico Mendes que há dentro de todos nós. Pior ainda foi ter visto plantação de cana-de-açúcar por lá, uma cultura importante para o Brasil, mas que deveria ser mantida a uma distância totalmente segura da região amazônica.

Minha última tentativa de encontrar a floresta foi numa tarde de domingo, quando cruzei de balsa o rio Madeira e andei alguns quilômetros na estrada que um dia já levou qualquer tipo de veículo a Manaus. Mesmo com algumas gotas pingando do céu, decidi entrar em uma estradinha de terra até chegar a uma mata que havia visto de longe. Ali, vi árvores relativamente grandes, encontrei uma pequena área alagada como tantas que vira na televisão, mas ainda não tinha encontrado a floresta das minhas imaginações de criança.